A rapidez no fechamento do protocolo de morte encefálica tem sido um fator decisivo para ampliar a viabilidade da doação de órgãos, em Sergipe. No Hospital de Urgências de Sergipe Governador João Alves Filho (Huse), onde acontecem a maior parte das captações no estado, a atuação integrada das equipes de saúde e o acolhimento às famílias têm fortalecido o processo de doação e contribuído para salvar vidas.
Dados da Central Estadual de Transplantes mostram que, entre 1º de janeiro e 24 de maio de 2026, Sergipe registrou 25 doadores de órgãos, um aumento de pouco mais de 20% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 20 doadores. O crescimento também refletiu no número de órgãos captados: em 2025, foram captados um coração, 19 rins e 11 fígados. Já em 2026, o estado registrou três corações, 35 rins e 18 fígados.
De acordo com a coordenadora da Organização de Procura de Órgãos de Sergipe (OPO/SE), Darcyana Lisboa, o tempo é um dos principais aliados para garantir o sucesso do transplante. “O fechamento rápido e correto do protocolo é fundamental porque o tempo influencia diretamente na viabilidade dos órgãos. Quanto maior a demora, maior o risco de deterioração. Depois que o protocolo é concluído, existe um tempo limitado para preservação de cada órgão. Por isso, agilidade e segurança precisam caminhar juntas em todas as etapas”, destacou.
Após a retirada do doador, os órgãos passam a enfrentar o chamado tempo de isquemia fria, período em que deixam de receber oxigênio e nutrientes pela circulação sanguínea e permanecem preservados até o transplante. “O coração, por exemplo, possui um tempo muito curto de preservação, de quatro a cinco horas. O fígado pode chegar a 12 horas, o pâncreas até 20 horas e o rim até 36 horas. Mas quanto mais rápido esse órgão chega ao receptor, melhores são as chances de sucesso do transplante e da recuperação do paciente”, explicou Darcyana.
A coordenadora ressaltou, ainda, os avanços conquistados no Huse com a reorganização do fluxo de trabalho e a integração das equipes multiprofissionais. “Antes, um protocolo chegava a levar mais de uma semana para ser concluído. Hoje, conseguimos finalizar em até 24 horas, com segurança e dentro das normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Medicina. Isso só foi possível porque ampliamos o envolvimento dos profissionais de saúde, com médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e toda a equipe atuando de forma integrada”, afirmou.
Além da agilidade, o cuidado com a preservação dos órgãos é outro ponto essencial para garantir a segurança do transplante. Após a captação, os órgãos são acondicionados em soluções específicas de preservação, armazenados em bolsas estéreis e mantidos em caixas térmicas em temperaturas controladas. “Todo o processo é realizado dentro do centro cirúrgico, de forma técnica, segura e respeitosa. Os órgãos são preservados em temperatura adequada até chegarem ao receptor, onde passam por uma nova avaliação antes do transplante”, ressaltou Darcyana.
Recentemente, duas captações realizadas no Huse mobilizaram equipes multiprofissionais e reforçou a importância da rapidez no fechamento do protocolo de morte encefálica. Desde a abertura do protocolo até a realização da cirurgia de captação, o trabalho integrado entre assistência, OPO e Central Estadual de Transplantes garantiu que todo o processo ocorresse dentro do tempo necessário para preservar a viabilidade dos órgãos.
Para a equipe, além da eficiência técnica, o acolhimento às famílias continua sendo uma das etapas mais importantes de todo o processo. “A comunicação precisa ser clara, acolhedora e empática. Quando a família se sente respeitada e bem assistida, ela consegue compreender melhor um momento tão delicado. Esse acompanhamento humanizado faz toda a diferença”, pontuou a coordenadora.
O coordenador estadual da Central de Transplantes, Benito Fernandez, destacou o papel da população no fortalecimento da doação de órgãos. “A sociedade sergipana tem respondido favoravelmente à doação, sendo exemplo dentro do território nacional. Isso merece ser registrado: a imensa solidariedade do povo sergipano. A legislação brasileira determina que cônjuge ou parentes até segundo grau são responsáveis pela autorização da doação, por isso, é essencial que as famílias conversem sobre esse desejo. Essa informação ajuda na tomada de decisão em um momento de dor”, concluiu.