Hoje, 6 de julho,Mosqueiro completa 131 anos. Muita gente que mora em Belém, certamente, tem algumamemória afetiva da ilha, ou conhece alguém que tenha. Lembranças das praias de água doce, do agito nos meses de julho, carnavais na praia, viradas de ano, família reunida, celebração com os amigos. Mas também da calmaria bucólica do pôr-do-sol, do som das matas e da brisa do rio.
Mas a história de Mosqueiro também é feita pelagente trabalhadoraque atravessa a ponte todos os dias para o ganha pão, bem como pelos que permanecem ali no dia a dia: vendedores, feirantes, pescadores, cozinheiros, donas de casa, empresários, estudantes…
Pessoas como o empreendedor Felipe da Paz, quetrabalha com barracas na Praia do Farol; ou como a permissionária Lulu Ketleyn, que trabalha desde muito pequena comotapioqueira; ou ainda como o pescador Paulinho Silas,ribeirinho que vive da pesca artesanal; ou como a quilombola mais antiga da ilha, Tia Querida, que nos seus 96 anos de vidaexalta a naturezae a paz da sua comunidade.
A família de Felipe da Paz foi uma das primeiras a chegar na Ponte do Cajueiro, no bairro Carananduba. Neto de pescador, ele é proprietário do restaurante Samambaia Beach, na Praia do Farol, e conta que já faz parte de uma terceira geração de barraqueiros de Mosqueiro.
Morador orgulhoso de Mosqueiro, Felipe destaca aculinária local e a paisagemno cotidiano da ilha. Embora o negócio gire em torno da movimentação da praia, o que mais aprecia no distrito são anatureza e a tranquilidade.
Para o empreendedor, viver em Mosqueiro é considerado um presente.
Uma das tradições em Mosqueiro é tomar umcafé da manhã ou da tarde na Tapiocaria da Vila, localizada na frente do Mercado Municipal e próximo à Praça da Matriz. É lá que fica o Box da Neném, da Lulu Ketleyn,premiada cinco vezescomo a melhor tapioca de Mosqueiro.
“Neném”, que dá nome ao empreendimento, é a mãe da Lulu, que hoje, pela idade avançada, já não pode mais estar à frente do negócio. Mas foi com ela e com a avó que Lulu aprendeu o ofício.
Mas quando não está na Tapiocaria, Lulu também aproveita para viver as manifestações culturais da ilha, uma paixão.
Lulu é natural de Mosqueiro e passou a vida toda na ilha, com uma “infância sadia”, como ela mesmo descreve. Já trabalhou como cabeleireira, mas hoje busca manter vivo o legado de tapioqueira deixado pela mãe.
E a empreendedora acredita que o trabalho ajuda a fazer um dos principais atrativos na ilha.
Paulo Silas, conhecido como Paulinho, épescador artesanale aprendeu o ofício com o pai e o avô. Natural de Mosqueiro, a família é toda de origem da ilha também.
A infância ribeirinha e o exemplo da família formou o pescador que ele é hoje, profissão que exerce com orgulho.
Ele, que depende da natureza para o sustento, deixa um apelo para que moradores e visitantescuidem melhor da conservação ambientalde Mosqueiro no aniversário de 131 anos da ilha.
Bem longe das áreas movimentadas que caracterizam Mosqueiro na alta temporada, nacomunidade quilombola de Sucurijuquara, localizada no bairro de mesmo nome, resiste a natureza e a tranquilidade. É lá que mora Creuza Chaves, 96 anos, mais conhecida como “Tia Querida”, aquilombola mais antiga da ilha.
O apelido não veio à toa: todos gostam dela que também é chamada de “Rainha dos Quilombolas”. Nascida na comunidade, descendente de mãe mosqueirense e de pai e avós maranhenses, acumula um grande legado: tem8 filhos, 36 netos e 14 bisnetos.
Apesar de ter vivido uma infância difícil, com poucos recursos, sempre foi reconhecida pela alegria.
Com a morte precoce do marido, a matriarca batalhou muito para sustentar os filhos.
Hoje idosa, Tia Querida já fala com mais dificuldade, mas não deixa de reconhecer que a tranquilidade e aconvivência comunitáriaé o que ela mais gosta na ilha.
Muitos outros lugares e pessoas são “a cara” de Mosqueiro, mas o que une a todos é o desejo decuidado permanente com a ilha, para que os atrativos naturais, culturais, culinários e de patrimônio material não fiquem apenas na memória, mas perdurem pormais séculos de história.