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Piano do Cine Olympia atravessa gerações e guarda história em Belém

Instrumento fabricado em 1913 acompanhou sessões de cinema mudo e ajudou a formar músicos na capital paraense

15/03/2026 às 14h26
Por: Redação Fonte: Agência Belém
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Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho

Em Belém, durante as primeiras décadas do século XX, as exibições do então cinema mudo precisavam de um som para dar vida às imagens.Quem cumpria esse papel era um piano.Suas teclas transformavam silêncio em emoção, suspense em acordes tensos e cenas românticas em melodias suaves dentro do histórico Cine Olympia.

Fabricado em 1913e adaptado para resistir ao clima úmido da Amazônia, o instrumento sobreviveu ao tempo. Mais do que um objeto antigo, tornou-se testemunha de uma época em que a música era criada ali, ao vivo, enquanto o filme se desenrolava na tela.

Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho

NoCine Olympia — inaugurado em 1912e considerado o cinema mais antigo do país ainda em funcionamento— o piano era parte essencial do espetáculo. Sem diálogos gravados, cada sessão dependia da sensibilidade do pianista, que acompanhava as cenas improvisando ou seguindo partituras para conduzir as emoções do público.

Segundo amusicista Márcia Aliverti, cuja família tem origem italiana e portuguesa, o instrumento pertenceu ao cinema durante esse período do cinema mudo.

Foto: Reprodução/Agência Belém
Foto: Reprodução/Agência Belém

Do cinema para a sala de casa

Amudança aconteceu no final da década de 1920 e início dos anos 1930, quando o cinema entrou definitivamente na era do som. Os chamados filmes falados chegaram às telas e, pouco a pouco, os pianos que antes conduziam as sessões passaram a perder função.

Naquele tempo, o Cine Olympia ainda era um empreendimento privado — como praticamente todos os cinemas da cidade. Foi nesse contexto que o instrumento acabou sendo vendido.

Ocomprador foi o empresário Clóvis Ferreira Jorge, avô de Márcia. Na capital paraense, ele era conhecido por atuar no setor de transportes e por administrar a chamada “Viação Americana”, empresa de ônibus que ficou famosa pelos veículos com formato semelhante a Zeppelins.

Assim, o piano deixou o palco do cinema e iniciou uma nova vida dentro de uma casa.

Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho

Formação de músicos

Se no cinema ele acompanhava histórias projetadas na tela,na nova casa o piano passou a ajudar a construir histórias reais.A professora de música Mavilda Aliverti, mãe de Márcia e hoje com 86 anos, começou a estudar no piano ainda criança, aos 10 anos de idade. Mais tarde, o mesmo instrumento se transformaria em ferramenta de ensino.

“A minha mãe deu aulas nesse piano. Nele começaram a estudar todas as filhas e muitos alunos, que hoje também são professores de música”, relata Márcia.

Entre familiares e estudantes,o instrumento ajudou a formar quatro musicistas da mesma família e diversos outros profissionais da área musical no Pará.Cada tecla pressionada carregava não apenas uma nota, mas também o início de novas trajetórias.

Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho

Uma cidade movida pela música

A história dopiano também reflete um período de efervescência cultural em Belém, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.

Naquele tempo, a cidade respirava música. Teatros, conservatórios e apresentações artísticas faziam parte do cotidiano urbano.Espaços como o Theatro da Paz consolidavam a tradição da música erudita, enquanto compositores paraenses ajudavam a fortalecer a identidade cultural da região.

Ter um piano em casa era mais do que possuir um instrumento: era símbolo de prestígio e de envolvimento com a vida cultural da cidade.

Nosbairros tradicionais, como Nazaré e Batista Campos, saraus musicais reuniam famílias e amigos. As salas de estar se transformavam em pequenos salões de concerto improvisados, onde se cantava, tocava e celebrava a música.Foi nesse ambiente que o antigo piano do Cine Olympia encontrou seu novo papel.

Uma relíquia preservada

Décadas depois, o instrumento acabou sendo vendidopara uma aluna de Mavilda. Anos mais tarde, durante um recital, Márcia reencontrou a antiga estudante e soube que o piano seria colocado à venda novamente. A decisão veio carregada de memória e afeto.

“Eu sempre achei esse piano lindo. Quando soube que ele estava à venda, comprei de novo e trouxe para casa”, lembra.

Hoje, porém, o instrumento já não pode mais ser tocado. A restauração da mecânica interna teria um custo muito alto. Mesmo assim, ele permanece cuidadosamente preservado como uma relíquia da família.

Pesando cerca de 250 quilos, o piano guarda detalhes curiosos: foi construído especialmente para resistir ao clima amazônico e ainda mantém a placa do antigo agente comercial, Abraham Mathias, que o vendia em Belém, na Rua 13 de Maio.

Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho

Memória de um tempo

Enquanto o Cine Olympia passa por obras de restauração , a história desse piano reaparece como um fragmento vivo da memória cultural de Belém.

Mais do que madeira, cordas e martelos, o instrumento carrega ecos de um tempo em que o cinema era acompanhado por música ao vivo, quando famílias se reuniam em torno de um piano nas noites de sarau e quando aprender música fazia parte da formação de muitos belenenses.

“É um piano que trabalhou bastante, formou muita gente e tem muita história”, resume Márcia.

Hoje ele permanece silencioso. Mas, para quem conhece sua trajetória, basta imaginar as teclas sendo pressionadas outra vez para que o som daquele antigo cinema volte a ecoar — como se cada acorde ainda acompanhasse as cenas deum filme que continua vivo na memória da cidade.

Crédito: Paula Lourinho
Crédito: Paula Lourinho
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