
No Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais, celebrado em 23 de abril, escolas da rede pública estadual de Sergipe evidenciam um movimento que vai além do incentivo à leitura: a consolidação dos clubes do livro como estratégia pedagógica transformadora. Iniciativas como o Clube do Livro Barão de Mauá, em Aracaju, e o Café Literário, em Simão Dias, têm ampliado o interesse dos estudantes pela leitura, fortalecido competências essenciais para o desempenho escolar e contribuído para a redução da ansiedade em um contexto marcado pela restrição do uso de celulares nas escolas, conforme a Lei Federal nº 15.100/2025.
Criado em 2013, no Centro de Excelência Barão de Mauá, o Clube do Livro nasceu como resposta direta a um desafio recorrente: a dificuldade de letramento entre os estudantes. O professor de Filosofia Vitor Vladimir, um dos idealizadores, relembra que a iniciativa começou de forma estratégica, partindo de leituras mais acessíveis até alcançar obras mais complexas. “A gente sentia muita dificuldade na escrita dos alunos. E só escreve bem quem lê bem. Começamos com quadrinhos, depois avançamos para a literatura brasileira e internacional e para textos das áreas de filosofia, sociologia e história”, explica.
Ao longo dos anos, o projeto se consolidou como uma prática estruturante na escola, atravessando diferentes iniciativas pedagógicas. Mesmo diante de desafios, como a adaptação ao ensino integral, o clube manteve sua essência: formar leitores críticos, capazes de dialogar, interpretar e produzir conhecimento.
Leitura como experiência coletiva e formativa
Mais do que ler, os clubes promovem experiências coletivas de interpretação e debate. No Barão de Mauá, os estudantes participam ativamente da escolha das obras, o que amplia o engajamento e o sentimento de pertencimento. O estudante Carlos Lucas destaca essa autonomia como um diferencial. “A gente tem opções de livros e também pode sugerir leituras. Isso faz com que a gente se sinta parte do processo”.
Essa dinâmica se desdobra em discussões que ultrapassam o conteúdo dos livros. A estudante Maria Isabela enfatiza o impacto formativo. “Às vezes, a gente acha que é um livro simples, mas, quando começa o debate, surgem questões sobre desigualdade, racismo e gênero. A leitura vira um espaço de autoconhecimento e reflexão”.
Os relatos dos estudantes evidenciam ganhos concretos no desempenho acadêmico, especialmente na preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A leitura frequente amplia o repertório sociocultural e qualifica a argumentação. “A leitura me dá mais conhecimento para usar na redação e melhora minha forma de analisar o mundo”, afirma Francielle, aluna do terceiro ano.
Maria Elisa reforça esse impacto ao destacar que o hábito de ler potencializou uma habilidade que já possuía. “Eu sempre escrevi bem, mas, com a leitura, ganhei mais repertório, mais conteúdo para desenvolver minhas ideias”.
Já Sofia Leite evidencia como a leitura influencia escolhas de vida. “Os livros ajudaram a formar meu pensamento crítico e até na escolha da minha faculdade, que será Ciências Sociais”.
Saúde emocional e novos hábitos na era digital
Além dos ganhos pedagógicos, os clubes do livro têm desempenhado um papel importante no equilíbrio emocional dos estudantes. Em um cenário de restrição ao uso de celulares nas escolas, a leitura surge como alternativa ao consumo excessivo de conteúdos rápidos e fragmentados.
O professor Vitor Vladimir chama atenção para os impactos desse consumo. “Existe um adoecimento causado pela fixação em vídeos curtos e textos superficiais. Isso afeta a capacidade de concentração e contribui para a ansiedade”, comenta.
A estudante Ariadne confirma essa percepção a partir da própria experiência. “Quando você dedica um tempo para ler, você se afasta do celular, e isso ajuda muito na ansiedade. Pelo menos me ajudou bastante”, afirma.
Café Literário: leitura como prática de vida
No Centro de Educação Profissional Professor Udilson Soares Ribeiro, em Simão Dias, o projeto Café Literário amplia essa perspectiva ao integrar leitura, convivência e reflexão crítica. Criado em 2025 pelo professor de Língua Portuguesa Raul Ribeiro de Araújo, o projeto reúne semanalmente estudantes para discutir obras que dialogam com a realidade social e com o universo do Enem. “A literatura é necessária para a vida. O clube trabalha essa formação integral do estudante”, destaca o professor.
Com metodologia participativa, os alunos escolhem os livros e se organizam em grupos de leitura. Entre as obras já trabalhadas estão Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro; Dom Casmurro, de Machado de Assis; e A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.
Os estudantes do Café Literário reforçam o papel da leitura como ferramenta de transformação. Para Michela Anunciação, a experiência vai além do conteúdo escolar. “A literatura serve como repertório para o Enem, mas também para a vida. Ela nos ajuda a enxergar e questionar o mundo de forma diferente”. Já a aluna Kellem Rayca destaca o ambiente de acolhimento e troca. “É um espaço onde a gente compartilha conhecimento e se sente bem. Isso faz diferença no nosso dia a dia na escola”, pontua.
Celebrar o livro é fortalecer futuros
Instituído em 1995 pela UNESCO, o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais celebra, em 23 de abril, o poder transformador da leitura. A data homenageia autores como William Shakespeare, Miguel de Cervantes e Inca Garcilaso de la Vega e reforça a importância do acesso democrático aos livros.
As experiências de Aracaju e Simão Dias demonstram que os clubes do livro são mais do que projetos complementares: são estratégias eficazes de aprendizagem, capazes de integrar desenvolvimento cognitivo, formação crítica e cuidado com a saúde emocional.
Com baixo custo e alto impacto, essas iniciativas podem ser adaptadas a diferentes realidades escolares, desde que contem com o engajamento de professores e a escuta ativa dos estudantes. A autonomia na escolha das leituras, a valorização do debate e a conexão com temas contemporâneos aparecem como elementos centrais para o sucesso dos projetos.
Nas escolas da rede pública estadual de Sergipe, essa transformação já é realidade. Entre páginas, debates e descobertas, os estudantes constroem não apenas melhores desempenhos acadêmicos, mas também novas formas de pensar, sentir e atuar no mundo.





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