
No Colégio Indígena Estadual Dom José Brandão de Castro, localizado na Ilha de São Pedro, no município de Porto da Folha (DRE 7), o projeto ‘Leitura Intercultural: Diálogo entre Saberes e Culturas’ vem transformando o cotidiano escolar ao promover o encontro entre diferentes narrativas literárias. Coordenada pelos professores Mariana Apolonio Rosa Lima e Jairo Silva, a iniciativa busca fortalecer a identidade cultural dos estudantes indígenas, ao mesmo tempo em que amplia o repertório literário e estimula o pensamento crítico.
Voltado para estudantes dos ensinos Fundamental e Médio, o projeto parte de uma proposta intercultural que valoriza tanto a literatura indígena quanto produções não indígenas. A iniciativa se justifica pela necessidade de garantir o acesso a diferentes formas de conhecimento sem romper os vínculos com a cultura originária.
A partir dessa perspectiva, a escola desenvolve atividades que incluem leitura coletiva, rodas de conversa, produção textual e artística e momentos de socialização com a comunidade. O objetivo central é promover o diálogo entre saberes, incentivando o respeito à diversidade cultural e a construção de uma consciência crítica nos estudantes.
A professora Mariana Apolonio Lima explica que o projeto é estruturado em etapas que envolvem desde a seleção de obras até a socialização dos trabalhos produzidos. “Entre os autores da literatura indígena trabalhados estão nomes como Daniel Munduruku, Eliane Potiguara, Ailton Krenak e Márcia Kambeba. Já na literatura não indígena, os estudantes têm contato com autores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Ariano Suassuna entre outros”, ressalta.
Para a diretora Ângela Apolônio, o projeto representa uma ponte entre o conhecimento tradicional e o ensino formal. “Essa integração fortalece tanto a escola quanto a comunidade, garantindo uma educação mais justa, respeitosa e alinhada com a realidade do nosso povo”, afirma.
Ela destaca, ainda, que a gestão escolar atua de forma ativa na consolidação da proposta, apoiando a participação de lideranças e anciãos e incentivando a inserção dos saberes tradicionais no currículo. “Entre os resultados já observados estão a maior participação dos estudantes, o fortalecimento da identidade cultural e a construção de um ambiente escolar mais inclusivo”, pontua, ao frisar, ainda, que a comunidade também tem papel fundamental, contribuindo com histórias, memórias e práticas culturais, além de participar de eventos e atividades pedagógicas.
Impactos na formação dos estudantes
Os efeitos do projeto são percebidos diretamente na trajetória dos alunos. O estudante Thawã Raell dos Santos Lima, da 3ª série do Ensino Médio, é um dos exemplos mais expressivos desse impacto. Monitor escolar, ele se destaca pelo desempenho acadêmico e pelo engajamento nas atividades pedagógicas e culturais da escola.
Em 2025, Thawã foi medalhista da Olimpíada do Tesouro Direto de Educação Financeira (OLITEF), conquista que lhe garantiu uma premiação de R$ 5 mil da qual decidiu investir R$ 1 mil na compra de livros, reforçando sua relação com a leitura e o conhecimento. Reconhecido pelos professores como um estudante dedicado, inteligente e altamente participativo, ele também se envolve ativamente nas ações da comunidade, especialmente na valorização e preservação da cultura Xokó.
Ao refletir sobre sua experiência no projeto, Thawã destaca que sua motivação foi a oportunidade de se aproximar mais da literatura indígena. “A literatura indígena quase nunca aparece de forma real no ensino, então participar disso foi uma forma de não só aprender, mas também de nos reafirmar”, considera.
Para o estudante, o projeto ampliou a compreensão sobre o papel da literatura na sociedade. “A literatura sempre tem a ensinar, ao provocar e ao reforçar o que, às vezes, a gente deixa de lembrar. Entendi que ela pode ser uma forma de resistência, assim como a arte em geral. Os registros e relatos são essenciais na preservação e fortalecimento da nossa riqueza e diversidade cultural”, acrescenta.
Já a estudante Paola Saraiva Apolônio, da 1ª série do Ensino Médio, reforça o impacto do projeto na valorização da identidade e no fortalecimento cultural dentro da escola. Segundo ela, o primeiro contato com a iniciativa despertou interesse imediato. “Conheci o projeto através da escola e me interessei porque é algo que pertence à cultura indígena. Quero me aprofundar mais na literatura indígena, até porque tenho grandes inspirações na minha aldeia, como Anísio Xokó, que nos faz refletir sobre a história de luta do nosso povo”, destaca.
Para Paola, o projeto reafirma o papel da escola como espaço de pertencimento. “O projeto reforçou ainda mais o que eu sempre vejo: a escola como um lugar de valorização da nossa identidade e da nossa história. Participar dele me fez reconhecer o quanto é importante que a nossa cultura esteja sempre presente no ambiente escolar. A literatura faz com que todos nós possamos compartilhar, conversar, relembrar e nos inspirar nas histórias do nosso povo Xokó”, conclui.
Desafios e perspectivas
Apesar dos avanços, o projeto enfrenta desafios relacionados à continuidade e ampliação das ações. Entre as perspectivas futuras estão o fortalecimento da participação de lideranças indígenas, o registro sistemático de histórias e saberes e a possibilidade de produção de material pedagógico próprio.
Entre os principais resultados esperados estão a formação de leitores críticos, o fortalecimento da identidade cultural, o respeito à diversidade e a integração entre escola e comunidade.





Mín. 21° Máx. 30°