
O Dia Nacional do Quadrilheiro Junino ganhou um significado especial no Centro de Criatividade neste sábado, 27, durante a primeira disputa da semifinal do Concurso Arranca Unha. Em uma noite de competição acirrada, arquibancadas cheias e torcidas mobilizadas, quadrilheiros e quadrilheiras mostraram que a quadrilha atravessa a infância, o trabalho, a família e os sonhos de quem mantém viva essa tradição. O evento é realizado pelo Governo de Sergipe, por meio da Fundação de Cultura e Arte Aperipê de Sergipe (Funcap).
Subiram ao palco os grupos Festa na Roça, Meu Sertão, Balanço do Nordeste, Retirantes do Sertão, Século XX e Unidos em Asa Branca, que disputaram vagas na grande final da competição.
O Dia Nacional do Quadrilheiro Junino foi instituído pela Lei nº 12.390, de 2011, como forma de reconhecer os artistas que mantêm viva essa tradição em todo o país. O movimento ganhou novo reconhecimento com a Lei nº 14.900/2024, que declarou as quadrilhas juninas como manifestação da cultura nacional.
Nos bastidores e no tablado, esse reconhecimento aparece em histórias de dedicação. Antes de cada apresentação, há meses de ensaios, pesquisas, confecção de figurinos, montagem de cenários, preparação musical e organização coletiva. A quadrilha também movimenta cadeias de trabalho ligadas à costura, cenografia, produção, coreografia, música e serviços, além de criar vínculos de convivência, pertencimento e formação para jovens e adultos.
Paixão que começa cedo
Para muitos brincantes, a relação com a quadrilha começa ainda na infância. Presidente e quadrilheiro da Festa na Roça, Diego Andrade lembra que foi um tio quem levou a tradição para o município de Itaporanga d’Ajuda, primeiro com a quadrilha mirim e depois com o grupo adulto. “Desde menino a gente foi se apaixonando pelo movimento junino e, quando menos espera, já está inserido nesse cenário. Estou há mais de 20 anos dançando quadrilha e fazendo cultura. Na Festa na Roça, a gente costuma dizer que não é só uma quadrilha junina, é uma família. Ser quadrilheiro é orgulho, é sangue, é vestir uma camisa que transborda emoção”, contou.
Conciliar ensaios, apresentações, trabalho e família faz parte da rotina de quem vive o movimento junino. Diego explica que, muitas vezes, é preciso abrir mão de momentos em casa para manter viva a tradição. “A gente está nesse movimento pelo amor à cultura, por manter viva essa tradição que é raiz aqui no Nordeste. Só quem é quadrilheiro sabe o que sente. A gente termina um ciclo e já começa outro. É uma paixão incomparável”, acrescentou.
Quadrilheira da Meu Sertão, de Riachuelo, Elia Carla dança desde 2016 e define a quadrilha como um espaço de alívio em meio à correria do dia a dia. “Minha paixão pela quadrilha junina vem desde criança. Quando tive a oportunidade de dançar, comecei e estou até hoje. Ser quadrilheira é muito cansativo, é angustiante às vezes, porque são muitos ensaios, mas também é muito gratificante. A gente fica feliz pelo trabalho realizado. O que me motiva é a diversão. Aqui a gente esquece um pouco dos problemas e fica feliz”, afirmou.
Para Antônio Júnior, da Balanço do Nordeste, a paixão começou aos 17 anos, ao assistir a uma quadrilha se apresentar em sua cidade. Hoje, ele sai de Tobias Barreto para dançar em Umbaúba e encara o deslocamento como parte do compromisso com a tradição. “Não é fácil sair do interior, é corrido, mas é uma correria gostosa. A adrenalina de se arrumar, vestir a roupa e subir no tablado é muito boa. O que me motiva é querer que a chama do São João nunca se apague. A gente torce pela cultura para que ela continue viva”, disse.
Quadrilha transforma vidas
Há também quem encontre na quadrilha um caminho de reinvenção. Professora de Geografia e quadrilheira da Unidos em Asa Branca, Vanessa Santana dança há 20 anos e afirma que o movimento teve papel decisivo em sua trajetória. “Dançar quadrilha salvou minha vida. Foi a forma que eu tive de me reinventar enquanto pessoa, profissional, mãe e mulher. Na quadrilha junina, a gente vive fora do que a sociedade nos impõe e nos cobra. Eu sou feliz dançando quadrilha”, declarou.
Para Vanessa, o tablado é o lugar onde meses de trabalho se transformam em expressão artística. “É um momento mágico. A gente não está apenas perpetuando a cultura do nosso estado, está praticando aquilo que trabalhou durante meses, toda a ideia, a postura, a coreografia. É fantástico conseguir se expressar e receber do público esse retorno de que está tudo bonito. Ser quadrilheiro é ser feliz”, resumiu.
Júnior Vieira, da Século XX, começou a dançar em 2015, em Carmópolis, depois de anos acompanhando os grupos juninos da cidade. Hoje, além de brincante, também atua como coreógrafo e concilia a rotina com o trabalho como professor de matemática. “Minha cidade sempre teve quadrilha junina ativa. Eu acompanhava, insistia para participar e nunca imaginei que dentro desse meio eu ia crescer tanto como brincante e como profissional. Hoje, é algo que levo para a minha vida”, afirmou.
A rotina, segundo Júnior Vieira, exige dedicação, mas também dá sentido ao trabalho. “Conciliar a vida fora da quadrilha com a vida dentro da quadrilha é muito difícil. Sou professor de matemática, dou aula todos os dias, sou dançarino e coreógrafo. Mas a paixão pelo São João e o amor pela cultura fazem a gente seguir. Eu me encontro nesse meio e não me vejo fora dele. Ser quadrilheiro é transmitir toda a emoção e todo o carinho que a gente tem pelo ciclo junino e transformar isso em arte para quem vem nos assistir”, disse.
Marcador da Retirantes do Sertão, Márcio Lima Souza está na quadrilha desde 1996 e descreveu como privilégio se apresentar no Centro de Criatividade justamente no Dia Nacional do Quadrilheiro Junino. Para ele, fazer quadrilha vai muito além do mês de junho. “Só quem dança quadrilha sabe a magia de vir para o arraial e mostrar ao público a cultura da quadrilha junina, que é um movimento muito forte no Nordeste e aqui em Sergipe. Fazer quadrilha envolve meses de pesquisa, trabalho, ensaios e preparação para trazer um espetáculo bonito. Ser quadrilheiro, para mim, é expressar todo o amor que a gente tem por essa cultura e, principalmente, pelo nosso Nordeste”, completou.
As falas se somam a tantas outras histórias que circulam pelos bastidores do Arranca Unha e mostram que, por trás de cada coreografia ensaiada, existe um compromisso com a tradição, com a coletividade e com o futuro do movimento junino em Sergipe.
Resultado e próxima etapa
Na primeira noite da etapa semifinal, garantiram vaga para a final os grupos Unidos em Asa Branca, Século XX e Meu Sertão. Já as quadrilhas Retirantes do Sertão, Balanço do Nordeste e Festa na Roça encerraram sua participação na competição.
O Concurso de Quadrilhas Juninas do Arranca Unha segue neste domingo, 28, em horário especial, às 17h, no Centro de Criatividade. Sobem ao palco as quadrilhas Xodó da Vila, Meu Xodó, Rala Rala, Raio da Silibrina, Forró do Milho e Pioneiros da Roça, que disputam as últimas vagas na grande final da edição 2026.













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